quinta-feira, 23 de julho de 2009

Gritos do Silêncio - The Killing Fields


Em 1975, o Camboja é um país devastado. A Guerra do Vietnã se estende até suas fronteiras, e um conflito interno entre tropas governamentais e o Khmer Vermelho (ou Khmer Rouge, partido comunista de orientação maoísta que ameaça tomar o poder) coloca o país em colapso. Sydney Schanberg é um jornalista americano correspondente do New York Times no Camboja. Durante esse conflito, ele conhece o também repórter e seu intérprete Deth Pran. É do ponto de vista dessa aliança entre os dois profissionais e da amizade nascida dela que se desenvolve o filme Os Gritos do Silêncio (The Killing Fields, 1984). Ganhador de 3 Oscars (Melhor Ator Coadjuvante com Haing S. Ngor, Melhor Fotografia e Melhor Edição), o filme dirigido por Roland Joffé intercala uma lição política muito forte com a compaixão e a amizade.

O filme inicia com a chegada de Sydney no Camboja e contatando Pran. Um bombardeio em Neak Luong os leva a cruzarem o rio Mekong para cobrirem o acontecido. A personalidade perseverante de Sydney começa a ser delineada: ele não aceita a negativa para chegar até lá. Apesar do acesso ao local do bombardeio estar bloqueado, exige que Deth Pran intervenha junto aos locais e consiga o transporte.

Sydney é destemido. Desafia o exército americano através do poder que tem em mãos: “Eu irei citá-lo”, ameaçava os oficiais. O exército manipula dados de mortos e feridos e ele questiona o silêncio quanto aos ataques. Presencia, nessa expedição a Neak Luong, execuções pelas tropas governamentais do Camboja de guerrilheiros do Khmer Vermelho. Lá, por tentar obter fotos, é mantido preso até a chegada do resgate pelo exército. A repressão à imprensa fica marcada ao longo de todo o filme, em todas as suas variantes: seja impedindo de noticiar, amenizando situações graves (como fazia a assessoria da Casa Branca, no caso do bombardeio americano) ou mesmo com a execução de jornalistas durante os conflitos.

Com o avanço da guerra, o temor leva muitos a deixarem o país. Pran demonstra sua preocupação, sobretudo por sua família.
- Eu me sentiria um imbecil cobrindo a guerra em uma mesa em Bangkok - diz Sydney.
- O futuro pode ser muito ruim se a guerra seguir dessa maneira - replica Pran.
- O que você acha? – indaga Sydney
- Não sei.
- Eu também não. Sarun está lá embaixo. Vamos?
- Está bem.
Com sua sugestão, Sydney parece afastar a profundidade do diálogo, protelando uma decisão que precisaria ter sido tomada. Apesar de ainda preocupado, Pran segue. Sydney afasta estas questões delicadas. Ele precisa de Pran, tanto para tradução como para auxiliar no envio de reportagens. A expressão atrás de uma mesa faz uma referência clara a uma rotina burocrática, a uma postura de afastamento e, de certa forma, medo. Não admitiria estar encastelado num escritório fora da linha de combate. Para ele, o ofício jornalístico precisa estar in loco, precisa presenciar. Fora dessas circunstâncias, a cobertura se torna uma idiotice, feita por pessoas que não compreenderiam a dimensão e o papel do jornalista. Mais tarde, já de volta a Nova Iorque e jornalista premiado, ele admitiria para a irmã que nunca deu escolha a seu amigo: teria discutido o assunto seriamente com os outros jornalistas, mas nunca com Pran.
Após essa conversa, Sydney o registra, juntamente com sua família, como seus dependentes e consegue a remoção deles para os Estados Unidos. Diz que a decisão da situação está em suas mãos; emocionado, quando perguntando se deseja partir ou ficar, Pran responde: “Eu sou um repórter também, você entende?”.


Claramente o americano ignora as condições diferentes em que se encontram. Sydney não se esquece de enfatizar sua cidadania americana em diversas situações e até evocar emendas da constituição dos Estados Unidos. No entanto, ele negligencia o fato de que ao final do conflito, estará mais protegido do que o repórter cambojano. Os EUA teriam, evidentemente, mais meios e influência para proteção dos seus cidadãos, enquanto o Camboja, nesse sentido, é um estado inexistente. O apoio virá para ele e para os europeus, mas não para Pran e outros nativos. A atitude aceitável seria incentivar sua partida, já que seria a última oportunidade, a hora certa para que não acabasse preso àquela realidade, que tendia a piorar. Caberia ao americano forçar a partida do colega ou ele assume seus próprios riscos ao fazer embarcar sua família e optar por permanecer? Vemos como ele pode colocar em risco sua própria vida, em nome de um sentimento de dever muito forte. Quando Pran argumenta que “também é um repórter”, sugere que esse fato implica uma irmandade entre os dois, acima do valor de suas vidas.




As tropas governamentais não conseguem conter o avanço na capital Phnon Penh. A invasão pelo Khmer Vermelho não encontra mais resistência. Sydney e os demais jornalistas acabam prisioneiros do partido, cuja organização realiza execuções indiscriminadamente. O cambojano se voluntaria para juntar-se ao grupo e acaba intervindo para evitar a morte de todos. Após livrarem-se do poder dos membros do partido - agora governo do Camboja - ficam confinados na Embaixada Francesa aguardando por resgate. Ele chega, mas não para todos: para Pran e os demais nativos ali escondidos, o destino era permanecer no país dominado por um governo autoritário e genocida. A tentativa de forjar um passaporte britânico para Deth Pran é uma demonstração de gratidão dos jornalistas europeus e americanos. Desesperado para conseguir um filme e uma máquina para obter uma foto para o falso passaporte de Pran e, assim, fazer com que ele consiga também ser resgatado, Sydney interpela um homem com uma criança no colo:
- Você tem uma máquina fotográfica?
- Sim...
- Você tem filme? – pergunta ele, esperançoso.
- Não... Também não tenho um remédio para dar a essa criança que está morrendo de diarréia.
A resposta do homem está como a dizer: “Ei, seu jornalistazinho, está pensando em suas fotos numa hora como essa?”. No entanto, ele ignora que Sydney também está tentando salvar uma vida: pelo que viu e viveu no Camboja sob o poder daquele partido, ficar é sinônimo de morrer. A empreitada acaba mal-sucedida: a foto até existe, mas pela revelação precária, acaba apagando-se sem deixar tempo para a partida. Sydney embarca rumo aos Estados Unidos, atormentado pela idéia de ter deixado seu companheiro para trás. Apesar do reconhecimento pela cobertura de guerra e do prêmio de Jornalista do Ano, que recebe em seguida ao seu retorno ao seu país, ele sabe o quanto deve a seu amigo.

Pran acaba nos campos controlados pelo Khmer, onde vive uma realidade de escravidão e repressão. Formado por dissidentes do Partido Comunista da Indochina, previam também, uma Revolução Cultural. Ou seja, uma completa destruição do passado: “país novo feito com um homem novo”, como era o lema. Numa assembleia, um dos líderes declara: “quem quer que tenha sido professor, médico, estudante, o partido precisa de vocês e os perdoa”. Muitos se voluntariam e nunca mais foram vistos.

Nesse ambiente, Pran precisa fingir que não compreende inglês ou francês. “Só os mudos sobrevivem”. As crianças são consideradas ainda não corrompidas pela mentalidade ocidental, que segundo o partido dominava o Camboja. Crianças essas armadas, realizando execuções e ensinadas a destruir o valor da família: num quadro negro, um menino marca com um x pai e mãe e desfaz as mãos dadas deles com o filho; é aplaudido por todos. Em nome de uma utopia agrária, passam fome, mas são proibidos de terem suas próprias plantações. Empreendendo uma jornada sobre-humana, passando pelos desafios do esgotamento físico, da perseguição e das minas terrestres, o jornalista acaba alcançando as fronteiras do país e é socorrido pela Cruz Vermelha.

“Se houvesse alguma chance eu iria procurá-lo”. A chance acontece com a mensagem enviada por Pran ao chegar ao posto de refugiados. Sydney parte para resgatá-lo, não traindo o que disse a Sarun na noite da premiação, quando foi acusado (por um jornalista que estivera com eles na missão) de ser responsável pelo destino trágico de Deth Pran. No encontro emocionado, Pran não o perdoa: não havia, segundo ele, nada a perdoar. Sydney, em sua visão, fez o que precisava ser feito: tudo possível para trazer os horrores da guerra ao conhecimento do público. Para ele, esse dever valia todos os riscos.



Giuliana M. Seerig.

2 comentários:

Anelise. disse...

Ótima idéia postar as resenhas dos filmes do Rondon. Talvez assim os colegas matões resolvam assistir aos filmes. Seria digno se o fizessem. :*

Mony disse...

amo este filme parabens pela postagem,